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DIRECTRIZES PARA MITIGAÇÃO DO IMPACTO DOS RISCOs BIOLÓGICOS E PSICOSSOCIAIS NA SAÚDE DO TRABALHADOR NA VIGÊNCIA DA PANDEMIA PELO NOVO CORONAVIRUS

 

O mundo enfrenta um período de extrema apreensão por conta do surto do novo coronavírus SARS-CoV-2 que foi declarado Emergência de Saúde Pública de Âmbito Internacional a 30 de Janeiro de 2020, a COVID-19 foi considerada uma Pandemia a 11 de Março de 2020, e tendo em conta a situação epidemiológica em Angola na presente data, as organizações devem reforçar o seu papel primordial na protecção dos trabalhadores ao nível da saúde e segurança.

Para além do impacto negativo decorrente da morbimortalidade, existe o grande receio de que o impacto económico-financeiro negativo possa trazer consigo períodos de verdadeira instabilidade social, organizacional e individual.

Considerando o Colégio da Especialidade de Medicina do Trabalho (CEMT) da Ordem dos Médicos (OM) de Angola que a actual situação resulta em disfuncionalidade e disrupção em todas as empresas que não possuem Serviços de Saúde e Segurança no Trabalho, em particular ao nível do sector público, nomeadamente a maioria dos Hospitais, Escolas e Universidades;

Considerando que a Medicina do Trabalho é uma especialidade médica caracterizada por suas actividades se desenvolverem, na sua maioria, em ambientes não hospitalares, principalmente em Serviços de Saúde e Segurança no Trabalho (SSST) de empresas e constituem peça fundamental na primeira linha de defesa diária das empresas e dos seus trabalhadores e obviamente no que concerne à pandemia da COVID19. 

Tendo em conta a evolução da pandemia de COVID19 no nosso país, na visão do Colégio de Especialidade de Medicina do Trabalho, a verdadeira dimensão dos efeitos adversos deste problema de saúde pública ainda é imprevisível, mas provocará certamente roturas expressivas no domínio social, económico e no bem-estar dos colaboradores. Nesta perspectiva, o CEMT considera como efeitos mais relevantes, os riscos Biológico (contágio pelo novo coronavírus) e Psicossocial.

A prevenção do risco biológico deverá ser feito pelo reforço das medidas de biossegurança e uso rigoroso dos EPIs adequados às situações, observando as orientações do Ministério da Saúde e organismos internacionais, mormente a OIT e OMS que consistem em: Lavagem das mãos com água e sabão ou desinfectar com álcool gel, distanciamento social, desinfecção de superfícies, tossir ou espirrar na prega do cotovelo ou num lenço de papel e descartá-lo de imediato, entre outras. 

Neste guia de directrizes, o CEMT decidiu focar sua atenção nos riscos psicossociais do trabalho (RPT), por ter impacto considerável podendo afectar tanto a saúde assim como o desempenho dos profissionais envolvidos nas actividades de controlo a pandemia. Na Europa, segundo a OIT, os riscos psicossociais são o segundo problema de saúde relacionado com o trabalho. Sua importância, deve-se ao facto de serem menos tangíveis, por isso serem mais difíceis de avaliar, gerir e prevenir mediante abordagem proactiva direcionadas a origem, junto à sensibilização até políticas para sua gestão. 

O CEMT alerta que apesar de apresentarem alta prevalência entre os trabalhadores, os distúrbios psíquicos relacionados ao trabalho, frequentemente não são reconhecidos como tais, no momento da avaliação clínica. Essa situação pode estar relacionada às próprias características desses transtornos, regularmente mascarados por sintomas físicos, bem como à complexidade inerente à tarefa dos profissionais da saúde, de examinar a associação entre distúrbios mentais e o trabalho desenvolvido pelos trabalhadores. 

Torna-se, assim, imperativo perceber a importância destes riscos e analisar qual a abordagem para lidar com as consequências individuais, organizacionais e sociais no contexto da pandemia.

Factores de riscos psicossociais no contexto da pandemia 

Têm potencial para causar danos psicológicos, sociais e físicos aos trabalhadores através das suas percepções e experiências. Seu impacto pode provocar alterações de carácter emocional, cognitivo, comportamental, físicos e consequências nas organizações como resultado da interação entre o trabalhador, a natureza, o contexto, condições do trabalho e a cultura organizacional.

A título de exemplo temos a sobre e/ou subcarga de trabalho, a pressão e urgência, trabalho nocturno, conflitos interpessoais no trabalho, crises e mudanças organizacionais.

É importante relembrar que as intervenções para mitigar esses factores de risco, podem seguir três níveis: a) prevenção primária ou preventiva, uma abordagem que consiste em medidas proactivas direcionadas para os fatores de risco, ou seja, para a origem; b) a intervenção secundária que trata de medidas direcionadas para o trabalhador no sentido de proporcionar competências individuais que o permitam lidar com as situações de risco; c) a intervenção terciária ou abordagem reparadora que trata da reabilitação dos trabalhadores. O CEMT nesta fase, centra sua estratégia no nível de abordagem b, com objectivo de conferir ao trabalhador maior empoderamento para lidar com a situação.

No contexto da pandemia temos duas condições básicas:

  1. O trabalhador em regime de isolamento social com algum trabalho (teletrabalho) ou absolutamente sem ele. Neste grupo a monotonia, o isolamento, o medo são as principais causas de alterações psicossociais.

  2. O trabalhador na linha da frente, principalmente nas profissões de ajuda (profissionais da saúde, bombeiros, polícias, etc.). Este grupo é especialmente afectado pela sobrecarga e pressão do trabalho, turnos prolongados, medo de contágio à si e à família, estigma de outras pessoas, etc.

Todavia, de uma forma geral, nesta fase todos trabalhadores experimentam um grande sentimento de ansiedade decorrente da percepção do perigo e da incerteza. Assim todos estão acometidos com o tédio, angústia, irritabilidade e medo (de adoecer, de contaminar-se à si e familiares, de perder emprego, da morte ou perder ente queridos, das eventuais dificuldades financeiras pós pandemia).

Manifestações e efeitos adversos à saúde do trabalhador:

  1. Psicofisiológicos:

    a) Ansiedade, irritabilidade, apatia, angústia, tristeza, tédio, frustração, labilidade emocional, stress, depressão;

    b) Sintomas cardiovasculares (Hipertensão Arterial, palpitações), respiratórios (crises de asma), gastrointestinais (dores do estômago), dermatológicos (dermatoses), imunológico, endócrinos (aumento dos níveis de açucares e gordura no sangue).

  2. Comportamentais:

    Agressividade e/ou resignação, indiferença, insónia, distúrbios alimentares, alcoolismo, tabagismo, conflitos laborais e domésticos.


    Estratégias para diminuição do impacto do risco psicossocial Medidas individuais:

    1. Faça exercício físico regular pelo menos 30 à 45 minutos por dia.

    2. Alimentação saudável por exemplo num prato 50% vegetais, 25% proteínas e 25% carboidratos. Beba bastante líquidos sobretudo no intervalo das refeições

    3. Tenha pelo menos 7 à 8 horas de sono, evitando dormir muito tarde (para além das 23h)

    4. Estabelecer uma rotina adaptada ao isolamento social, ou seja, deverá permanecer activo, ocupado e produtivo. O teletrabalho, cursos online, leitura, etc.

    5. Faça uma boa gestão da comunicação e informação. Não use em demasia as redes sociais com foco em conteúdos relacionados à pandemia. Diminua a sensação do isolamento conectando-se digitalmente com amigos, familiares, colegas, etc.

    6. Faça uma boa gestão emocional. É normal sentir-se enteado, ansioso, frustrado, com raiva pois a sensação de privação de liberdade e as incertezas ligadas à saúde e ao trabalho, assim justificam. No entanto permanecer na negatividade periga à sua saúde.

    7. Crie períodos de descontração com música, meditação, dança, filmes, jogos com ente queridos, diálogos com amigos, colega, familiares.

Medidas Organizacionais (Gestores):

  1. Mantenha a conexão com os colaboradores. Envie emails, faça ligações por telefone ou WhatsApp manifestando preocupação, apoio e interesse pelo bem-estar dos subordinados.

  2. Para diminuir a inércia, a ociosidade, opte pelo teletrabalho ou delegue pequenas tarefas a realizar mesmo no domicílio.

  3. Para os trabalhadores da linha da frente:

    1. Reforce o sentimento de unidade, trabalho em equipa sem culpabilização exagerada por eventuais imprecisões inerentes ao contexto;

    2. Faça uma boa gestão das pausas para descanso e descontracção;

    3. Crie conexão para ouvi-los pois as dores, medo e desafios partilhados tornam-se mais fáceis de serem geridos e vencidos;

Sinais de alerta pelos quais deve-se procurar ajuda

É expectável que nesta fase da pandemia os trabalhadores tenham algumas das manifestações acima descritas. Para o efeito deverão aplicar as recomendações para diminuir o impacto do risco psicossocial. Porém em caso de persistência e aumento da intensidade dos sintomas deve-se procurar por ajuda profissional (médicos, psicólogos).

Sinais de alerta pelos quais deve-se recorrer à ajuda de profissionais da área (médicos, psicólogos):

  1. Aumento de intensidade dos sintomas psicológicos caracterizados por tristeza e angústia extremas, apatia, pensamentos recorrentes de suicídio;

  2. Manifestações físicas exacerbadas tais como Hipertensão, dificuldade respiratória;

  3. Aumento da agressividade, compulsão alimentar, tendência para conflitos, insónia recorrente, aumento do consumo de álcool, tabaco ou recursos à outras substância psicoactivas.

O presente guia de directrizes para o conhecimento e mitigação dos principais riscos associados à pandemia pelo novo coronavírus (Covid-19), constitui uma singela contribuição do CEMT no ingente esforço do estado para o controlo da doença. 

Colégio de Especialidade de Medicina dos Trabalho da Ordem dos Médicos de Angola, aos 09 de Abril de 2020.

A Direcção do Colégio de Especialidade de Medicina do Trabalho